“A Igreja deve ajudar o povo a discernir”: cardeal Scherer reflete sobre eleições e missão da CNBB
Em Aparecida, arcebispo de São Paulo destaca o papel da Igreja na formação da consciência política e aponta sinais de transformação religiosa no Brasil
Em meio aos trabalhos da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, realizada em Aparecida, o cardeal Dom Odilo Scherer propôs uma reflexão que atravessa fé e cidadania: o papel da Igreja diante de um país em transformação — social, política e religiosamente.
Ao comentar o momento vivido pelo Brasil em um ano eleitoral, o arcebispo destacou que a participação política não pode ser marcada pela indiferença. Para ele, a Igreja tem uma missão clara: ajudar o povo a discernir.
“O nosso papel é ajudar o povo a se envolver nas eleições, a refletir sobre as propostas e a escolher aqueles que possam responder às necessidades da sociedade”, afirmou.
Mais do que um posicionamento institucional, a fala aponta para uma responsabilidade formativa. Em um cenário onde a atenção se concentra, muitas vezes, apenas nas disputas presidenciais, Dom Odilo chama atenção para a importância do conjunto do processo democrático — especialmente do Poder Legislativo, frequentemente negligenciado, mas essencial para a construção do bem comum.
A reflexão se insere em um contexto mais amplo de discussão dentro da Assembleia, onde as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora ocupam lugar central. Segundo o cardeal, essas diretrizes não são apenas documentos administrativos, mas expressões de comunhão e corresponsabilidade entre as dioceses do país.
“Elas ajudam a Igreja no Brasil a caminhar em comunhão, mantendo metas comuns para a evangelização”, explicou, destacando que cada Igreja particular é chamada a acolher e adaptar essas orientações à sua realidade.
Mas o olhar do arcebispo não se limita à estrutura eclesial. Ao analisar o Brasil atual, ele descreve um país em movimento, marcado por avanços, mas também por desafios persistentes. A desigualdade social, segundo ele, continua sendo uma ferida aberta que exige respostas consistentes e de longo prazo.
“Não basta uma política de governo; é preciso políticas de Estado que garantam continuidade e permitam que os mais pobres possam, de fato, sair da pobreza”, alertou.
A fala evidencia uma preocupação que vai além do imediato: a necessidade de construir caminhos sustentáveis de inclusão social, capazes de romper ciclos históricos de desigualdade. Para Dom Odilo, programas sociais são importantes, mas insuficientes se não forem acompanhados de transformações estruturais que promovam autonomia e dignidade.
Ao mesmo tempo, ele reconhece que o Brasil vive também uma transformação no campo religioso. Longe de leituras simplistas, o cardeal aponta para um cenário complexo, onde diferentes movimentos coexistem.
Se por um lado houve crescimento de outras expressões religiosas nas últimas décadas, por outro, ele observa sinais de renovação dentro da própria Igreja Católica. Há maior participação nas celebrações, aumento na procura pelos sacramentos e um número significativo de pessoas que retornam à vida comunitária.
Esse movimento, ainda em consolidação, revela que a fé continua sendo um elemento vivo na sociedade brasileira — ainda que marcado por dinâmicas mais fluidas e mudanças rápidas.
“O fenômeno religioso é complexo e não pode ser reduzido a números”, pondera o arcebispo, indicando a necessidade de análises mais profundas que considerem dimensões culturais, sociais e espirituais.
Em um momento mais pessoal da entrevista, Dom Odilo também refletiu sobre sua própria caminhada. Próximo de concluir o período adicional concedido pelo Papa à frente da Arquidiocese de São Paulo, ele fala com gratidão e serenidade sobre o futuro.
“Só tenho a agradecer a Deus pela oportunidade de servir esta Igreja de São Paulo”, afirmou.
Sem projeções definitivas, mas com disponibilidade, expressa o desejo de continuar servindo, reconhecendo que a missão não se encerra com um cargo, mas se renova na fidelidade ao chamado.
Entre desafios sociais, processos eclesiais e transformações culturais, a fala do cardeal aponta para uma convicção central: a Igreja permanece chamada a ser presença que ilumina, orienta e acompanha — ajudando a sociedade a discernir caminhos onde a fé se traduz em responsabilidade e compromisso com o bem comum.
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